quinta-feira, 23 de outubro de 2014

O AERONAUTA / Cecília Meireles, 1952

UM
Agora podeis tratar-me
como quiserdes:
não sou feliz nem sou triste,
humilde nem orgulhoso,
- não sou terrestre.
Agora sei que este corpo,
insuficiente, em que assiste
remota fala,
mui docemente se perde
nos ares, como o segredo
que a vida exala.
E seu destino é ir mais longe,
tão longe, enfim, como a exata
alma, por onde
se pode ser livre e isento,
sem atos além do sonho,
dono de nada,
mas sem desejo e sem medo,
e entre os acontecimentos
tão sossegado!
Agora podeis mirar-me
enquanto eu próprio me aguardo,
pois volto e chego,
por muito que surpreendido
com os seus encontros na terra
seja o Aeronauta.
DOIS
Daquele que antes ouvistes,
vede o que volta:
alguém que pisa no mundo
tonto em seu tumulto
de concha morta.
Que rostos incompreensíveis,
Que sepultadas palavras
aqui me esperam?
Não sei dos vossos motivos.
Eu caminhava nas nuvens,
além da terra.
Na minha fluida memória,
meu tempo não sabe de hora.
Apenas sabe
de grandes campos sem teto.
Nos céus tão vastos e abertos,
que é porta ou chave?
Que corredores me apertam?
De que paredes me cerca
vossa hospedagem?
Que existe por estas salas?
Meu nome agora e diverso.
Indeclinável.
TRÊS
Eu vi as altas montanhas
ficarem planas.
E o mar não ter movimento
e as cidades irem sendo
teias de aranha.
Pois mais que houvesse, dos homens,
gritos de amor ou de fome,
não se escutava
nem a expressão nem o grito,
- que tudo fica perdido
quando se passa.
Eu vi meus sonhos antigos
não terem nenhum sentido,
e recordava
tantas nações de cativos
estendendo em seus jazigos
duras garras.
Rios de pranto e de sangue
que pereceram tão grandes,
onde é que estavam?
A asa, que longe se move,
desprende-se, quando sobe,
a humana larva.
QUATRO
Agora chego e estremeço.
E olho e pergunto.
E estranho o aroma da terra,
as cores fortes do mundo
e a face humana.
Compreendo, entre o que me espera,
violências que reconheço
mas que não sinto.
Sem paixões e sem desprezo,
gasto-me todo em lembranças,
neste tumulto.
Porque chego despojado
e humilho-me de ter vindo
como estrangeiro;
- de ser apenas um vulto
que tudo que sabe é de alma,
- ao resto, alheio.
As portas dos meus armários,
que guardam dentro? Esqueci-me.
De que me servem?
Por mais que tudo examine,
vejo que já não tenho
laços e heranças.
Perdoai-me chegar tão leve,
eu, passageiro
dos céus, límpido vento.
CINCO
Como um pastor apascento
minhas distâncias.
Mas logo me recupero,
para viver entre os vivos,
que estão cativos.
Meu corpo de esquecimento
mede as torres de abundância,
minhas distâncias,
livres e abertas,
dos seus antigos despojos.
Que hei de fazer do que tinha,
ó sombra minha?
Nem feliz nem desgraçado,
pouso por fatalidade,
e ainda respondo,
embora saiba que é longe
para sempre quanto digo
ao mundo antigo.
E tudo que me respondem
fica também noutras eras,
vem de outra idade.
Pastor que contempla ocasos,
eu mesmo sou o meu caminho,
claro e sozinho.
SEIS
Vede por onde passava
a minha sombra,
subida por uma escada
etérea e longa,
no céu desaparecida.
As coisas da minha vida
abandonara:
o que tivera não tinha,
nem fazia falta à minha
sorte mais nada,
nesse amorável deserto.
E agora desço e estou perto
e não entendo;
entre máscaras me vejo,
e, entre gritos de desejo,
saudoso penso
nos transparentes lugares
onde fui rastro dos ares,
sem roupa ou fome,
sem nação, família, idade,
imerso noutra verdade
tão pura que o homem
não a aceita sem tristeza ...
Mas sento-me à vossa mesa,
pesada e presa,
por limite e densidade.
SETE
E assim no vosso convívio
o hóspede novo
sorri como antigo vivo,
ultrapassado, vencido,
o tempo em que foi, na terra
escravo e dono.
E é tão póstumo e tão livre
que cuidadoso
se inclina para quem vive
e no seu mundo invisível
as asas cerra
e pisa o chão com denodo.
E é póstumo e redivivo
e não foi morto
e nunca esteve fugido
nem se evadiu, nem foi visto
desertar de alguma guerra
ou de algum posto.
Nem ele sabe o motivo
de ser outro,
de ter subido em suspiros,
arrebatado à planície
por onde erra
a tradição do seu corpo.
E só por estar convosco
de amor se mata
submisso e mudo Aeronauta.
OITO
Ó Linguagem de palavras
longas e desnecessárias!
Ó tempo lento
de malbaratado vento
nessa desordens amargas
do pensamento ...
Vou-me pelas altas nuvens
onde os momentos se fundem
numa serena
ausência feliz e plena,
liso campo sem paludes
de febre ou de pena.
Por adeuses, por suspiros,
no território dos mitos,
fica a memória
mirando a forma ilusória
dos precipícios
da humana e mortal história.
E agora podeis tratar-me
como quiserdes, - que é tarde,
que a minha vida,
de chegada e de partida,
volta ao rodízio dos ares,
sem despedida.
Por mais que seja querida,
há menos felicidade
na volta, do que na ida.
NOVE
Eu estava livre de imagens
e de mim mesmo.
Alto, longe, tão seguro,
só por solidões suspenso:
Ah, o passageiro absoluto
do eterno tempo!
Deixei de ver meu rosto
diluído pelas viagens.
Há um rosto imenso
que emerge, fúlgido e obscuro,
retrato exposto
sobre as fábulas e os mitos.
Eu já não dizia nada
pois só é puro
o silêncio, - e exato e claro.
Sempre uma sombra estremece
entre os pensamentos ditos.
E eu não falava.
No rio das nebulosas,
num vertiginoso leito,
tudo se esquece.
Nem o amor no nosso peito
é mais luminosa espada.
Que sois, coisas luminosas,
da terra ou do sonho humano,
nesses caminhos
de divino desengano?
DEZ
Ai daquele que é chegado
e de que não chega ...
Por mais que aqui me equilibre,
e vos faça companhia,
tudo são queixas
de que me sentis tão livre
como alguém cuja morada
é além do dia.
Provo do vosso alimento,
retomo as humanas vestes.
Já nem suspiro
por esses rumos celestes,
jardim do meu pensamento.
Quase não vivo,
por ficar ao nosso lado.
E acusais-me de ir tão alto!
Ai, que nome têm as coisas!
Que nomes tendes?
São vossas fontes copiosas,
mas outras são minhas sedes.
E assim me vedes
como estranho que se esquece
dos seus parentes
e que em si desaparece.
Do que pedis me lembre,
disso me esqueço.
Mas o que recordo sempre
é o vosso nome profundo.
Esse é que tenho só, comigo,
além do mundo e reconheço.
E, esse, mal sabeis qual seja...
ONZE
Com desprezo ou com ternura,
podereis tratar-me, agora.
Tudo vos digo:
chorais o que não se chora.
E os olhos guardais esquivos
ao que a vida mais procura,
por eterno compromisso.
Sob o vosso julgamento,
com o meu segredo
tão sem mistério,
paro como um condenado.
E logo volto.
Subo ao meu doce degredo.
Como exígua lançadeira,
vou sendo o que melhor posso
de novo e antigo,
do que é meu e do que é vosso,
dos mortos como dos vivos,
para salvar a vida inteira,
que me tem a seu serviço.
E agora podeis seguir-me,
sem mais tormento,
sem mais perguntas.
Tudo é tão longe e tão firme!
Além da estrela e do vento
passa o Aeronauta
com sua mitologia.
Não clameis por sua sorte!
Tanto é noite quanto é dia.
E vida e morte.

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