quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Trecho de PIRRO E O CETICISMO PRIMITIVO / Victor Brochard



"Sua tranquilidade de alma era inalterável, e praticava com serenidade a indiferença que ensinava. Se lhe ocorria ser abandonado enquanto falava, continuava seu discurso sem que seu rosto expressasse o menor descontentamento. Frequentemente se punha a viajar sem avisar ninguém; seguia ao acaso e tomava por companheiros aqueles que lhe agradavam. Gostava de viver sozinho, procurava os lugares desertos e raramente era visto entre os seus. Sua única preocupação era exercer a prática da virtude. Um dia foi surpreendido falando sozinho e, como lhe foi perguntado a razão, respondeu: “Medito sobre os meios de se tornar um homem de bem”. Outra vez se encontrava num barco batido pela tempestade; todos os passageiros experimentavam o mais vivo espanto. Somente Pirro não perdeu um instante seu sangue frio e, mostrando um porco ao qual se acabava de dar cevada e que comia muito tranquilamente, disse: “Eis aí a calma que devem dar a razão e a filosofia aos que não querem se deixar perturbar pelos acontecimentos”. (...) E levava mesmo tão longe a indiferença que um dia, tendo seu amigo Anaxarco caído num pântano, continuou seu caminho sem socorrê-lo, e como foi censurado, o próprio Anaxarco elogiou sua impassibilidade."

(Tradução: Jaimir Conte. Artigo originalmente publicado na Revue philosophique de la France et de l’Étranger, Ano 6, 1885, p. 517-532.)

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